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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Ano Hercúleo - 01 - Leão de Neméia

Olá meus caros!

Como programado, estamos no final do mês e isso significa mais um trecho na caminhada de Hércules!

Neste conto ele irá iniciar seus doze trabalhos enfrentando o terrível Leão de Neméia!


Espero que se divirtam muito!

Hércules chegou em Micenas com o sol se pondo às suas costas e se dirigiu ao palácio real.

A cidade ainda estava viva com seu comércio, cheio de transeuntes e ambulantes que abriam espaço prontamente quando viram o gigante corpo do herói se aproximar. Um sujeito chegou a lhe oferecer um arco, falando que era feito de uma madeira tão resistente que, ao ser tracionado, mandaria uma flecha a centenas de metros de distância, mas, com um pouco de força, a arma se estilhaçou nas mãos musculosas de Hércules, que apenas riu e devolveu os restos para o vendedor, batendo de leve na própria arma que trazia.

Além de suas armas, Hércules trazia consigo Iolau, filho de seu meio-irmão, Íficles, que daria testemunho de seus feitos, quando retornassem para casa, e teria a oportunidade de se desenvolver pessoalmente ao acompanhar e observar o tio.

Nos portões imensos do palácio, Hércules foi barrado pelos guardas, que demandaram que ele aguardasse até ser recebido pelo Rei Euristeu.

Euristeu era uma criatura na forma de homem que somava tudo que não deveria ser esperado de um monarca, suas feições eram feias, moldadas num corpo pequeno e fraco, com a voz esganiçada de uma velha bruxa e capaz de tantas crueldades quanto a mesma, além de ser um covarde e mentiroso sem igual, de modo que, ao se abrirem os portões, o rei avistou apenas a silhueta do herói colossal, contra o sol vermelho do poente, e debandou para seus aposentos, onde ficou chorando, lamuriando e pensando numa forma de se livrar de tal monstruosidade até pegar no sono.

Hércules, no receio de perder a oportunidade de se redimir, mandou Iolau conseguir um quarto para si na cidade e aguardou, sentado junto à entrada do palácio, por uma exigência ou missão.

Enquanto o herói aguardava noite à dentro, os sonhos de Euristeu eram invadidos por Hera, que mostrou uma criatura terrível, considerada imbatível, e cujo rugido fez o rei acordar aos berros de desespero quando o sol estava nascendo, berros que se tornaram uma risada maléfica, antes do rei recompor a pouca postura que possuía e chamar por seu serviçal.

Copreu, cuja índole era perfeitamente representada pelo seu nome, que significava “esterco”, recebeu as instruções do rei e se dirigiu até os portões, se deliciando a ponto de salivar com a oportunidade de dar ordens à um herói renomado como Hércules. Ao se deparar com o guerreiro, o mensageiro inflou o peito, se empertigou até sua máxima altura, que mal chegava aos cotovelos do gigante, e cuspiu numa voz seca e arrogante que aquele a serviço do ilustríssimo governante de Micenas deveria se retirar e retornar apenas com alguma prova de que havia aniquilado o aterrador Leão que atormentava o vilarejo de Neméia.

Ignorando os maus tratos do mensageiro, Hércules se virou e seguiu para seu destino, se sentindo tranquilo, pois já havia matados leões antes, não teria problemas de acabar com mais um.

Ao chegar, pensou ter encontrado a aldeia vazia, com as casas fortemente trancadas, janelas embarreiradas e ruas desertas, porém, com o cair do dia, viu que tímidas luzes eram acesas dentro de cada construção.

Sem demora, Hércules bateu em uma das residências, questionando se não poderia entrar, mas foi imediatamente rejeitado por uma voz masculina e adulta que alegava estar na época do leão sair de sua cova para comer, o que fazia uma vez por semana, e que o forasteiro deveria fugir o mais rápido possível, uma vez que nenhum habitante seria louco de abrir suas defesas para abrigar um estranho.

Ao perguntar de onde vinha tal besta, pois queria encontrá-la, o gigante, após um silêncio desconfortável, foi direcionado para a floresta ao sul da aldeia e avisado que era desperdiçar sua própria vida buscar embate com um monstro terrível como o Leão.

Hércules sabia que a outra opção era viver com a morte de seus filhos sobre seus ombros e nunca havia temido uma boa batalha, então seguiu para fora da cidade, onde avistou uma oliveira frondosa, próxima à casa de um velho que empilhava lenha do lado de fora.

Questionando o que o velho estava fazendo, este o respondeu que todas as semanas, desde que se mudara para fora da vila de Neméia, ele acendia uma fogueira em sacrifício à Zeus, que o protegia dos ataques do Leão.

Hércules quis saber porque o mostro era tão temido e descobriu que ele havia nascido de Tífon e Équidna, dois monstros poderosíssimos. O Leão era um pouco maior que outros de sua espécie, mas muito mais pesado e rápido, o que o tornava muito mais forte, além de ter um rugido tão poderoso que podia ser ouvido à quilômetros de distância, mas a fera ainda possuía uma característica mais inacreditável que todas as outras somadas, sua pele era tão resistente que nenhuma arma mortal poderia feri-la, tornando-o invulnerável.

O herói começou a compreender porque haviam lhe dado esse trabalho e qual era o real intuito de Euristeu...matá-lo. Porém, sem vacilar por um instante sequer, Hércules pediu a frondosa oliveira para o velho em troca de eliminar o leão.

Acreditando estar fazendo a última vontade de um homem condenado, o ancião aquiesceu, e viu com enorme surpresa o guerreiro arrancar a árvore do solo com apenas umas das mãos e, com grande habilidade, quebrar e arrancar os galhos até ficar com uma formidável clava, de altíssima qualidade pela dureza da madeira.

Colocando a arma no ombro, pediu que o velho aguardasse seu retorno para fazerem juntos um sacrifício à Zeus. Quando retomou sua capacidade de falar, após a demonstração da força de Hércules, o dono da casa perguntou o que deveria fazer caso ele não voltasse e foi requisitado que, caso o herói não voltasse em trinta dias, deveria fazer um sacrifício funeral, para que sua alma vá tranquilamente para o hades.

Hércules caminhou por dois dias até encontrar os primeiros rastros, pegadas grandes e profundas, além de espaçadas, mostrando os enormes saltos que o felino dava, dificultando o trabalho de serem seguidas, mas o guerreiro era também um ótimo caçador e encontrou em poucos dias o leão dormindo numa clareira.

Se aproximou sorrateiramente o máximo que pôde e disparou a sua primeira flecha, acertando entre os olhos cerrados, mas ricocheteando sem causar ferimentos. A segunda flecha atingiu o pescoço e voou para longe, fazendo apenas o animal se coçar, como se atormentado por uma chata mosca.

Nesse tempo, Apolo já estava quase no ponto mais alto de sua trajetória e com a luz e calor intensos o leão acordou, se agitou levemente olhando em direção ao sol, como se praguejasse ter sido atrapalhado, e começou a caminhar lentamente mata a dentro.

Hércules seguiu a fera até que esta entrou em uma cova no chão, onde provavelmente retomaria seu descanso, e o filho de Zeus decidiu que iria ficar aguardando o leão sair da toca, uma vez que, no seu interior, ele não teria espaço para manusear sua clava.

Por um dia o guerreiro aguardou em vão, pois, quando o sol atingiu novamente seu ápice, ele escutou o Leão rugindo em um outro ponto da floresta, um som tão poderoso que fazia as folhagens das árvores vibrarem em direções contrárias ao vento.

Acreditando que deveria ter cochilado durante a noite e, somado ao escuro, a fera poderia ter saído desapercebida, Hércules se escondeu atrás de uma pedra próxima, disposto a atacar quando a criatura estivesse para entrar em sua toca, já que sabia não ser capaz de alcançar o local de onde vinha o som antes que o Leão se movesse para outro lugar.

Por três dias e três noites o gigante vasculhou atentamente o horizonte, mantendo sua atenção o mais focada possível, mas foi surpreendido com o felino saindo da gruta, se abaixando para pegar impulso e dando um salto inigualável que o fez sumir entre as folhagens.

Após pensar sobre isso e tendo a certeza que não havia dormido dessa vez, Hércules se deu conta de que a cova deveria ter uma segunda entrada, a qual encontrou após algumas horas de busca.

Pretendendo encurralar sua presa e utilizando de sua força divina, selou a outra entrada com enormes pedras e correu para seu esconderijo onde aguardaria novamente o Leão.

Quando a tarde estava se aproximando do fim, Hércules pode ouvir os rugidos e gruídos irritados da besta, que deveria ter acabado de descobrir o acesso bloqueado. Minutos depois, o guerreiro viu o leão surgir entre as folhagens, mas, como já estava quase escuro e seu adversário estava atento e irritado, ele decidiu que o deixaria entrar em sua toca e o pegaria desprevenido assim que saísse no outro dia, pois também estava cansado de ficar tantas noites em claro.

O instinto do gigante o acordou quando os primeiros raios de luz despontaram no horizonte e ele se aproximou da caverna, tentando descobrir se o mostro já estava desperto. Conseguiu escutar, no fundo da gruta, o leão bufando e arranhando, provavelmente tentando remover as pedras, então Hércules correu para a outra entrada onde viu que um dos blocos já havia sido rolado para fora, deixando uma abertura.

Rapidamente, o guerreiro recolheu galhos secos, ateou fogo neles e os jogou para dentro do buraco. A cova, com o vento a favor, acabou se tornando um enorme cachimbo, jogando toda a fumaça dos galhos para dentro.

Hércules, usando de toda a sua velocidade, correu para a primeira entrada e ficou apostos com sua clava em riste, até que a fera saiu tossindo e com olhos vermelho, faiscando de ódio. O golpe da clava foi certeiro e tremendo contra o crânio do felino, fazendo toda a terra retumbar, mas a pele invulnerável cumpriu seu papel e o que foi estilhaçado foi apenas a arma, que rachou de ponta a ponta.

No entanto, a força hercúlea havia sido suficiente para atordoar o animal, que cambaleava sem conseguir se manter firme em pé, dando a oportunidade do herói saltar em suas costas e impedir sua respiração numa poderosa chave de pescoço.


O Leão se debateu por muitos minutos, numa disputa de resistência e força, mas em vão, pois o filho de Zeus saiu vitorioso, largando o corpo inerte no chão e caindo sentado de exaustão, pelos poucos dias de sono e muita luta.

Após descansar, Hércules decidiu que não haveria prova maior de sua conquista do que levar a própria carcaça de volta a Micenas, mas a viagem estava se mostrando longa e penosa, uma vez que a criatura pesava muito mais que um leão qualquer, e levou dias apenas para chegar na casa do velho, que preparava uma pira funerária em seu jardim, com um boneco de palha surpreendentemente parecido com Hércules em seu topo. Um mês havia se passado, desde que saíra daquela casa.

Vendo o Herói ao longe carregando o corpo do animal, o velho deu um grito de surpresa e júbilo e comentou que ele não precisaria ter trazido tal prova, pois acreditaria na palavra do semi-deus.

Hércules então explicou que deveria levar uma prova física de sua vitória para o Rei Euristeu, quem exigira a caça, mas não tinha ideia de quanto tempo levaria, pois a única comprovação que possuía era o próprio corpo do leão, que pesava mais que um enorme bloco de rocha.

O velho então sugeriu que o leão fosse esfolado, como fizera tantas vezes para tirar o couro de seus bois, mas Hércules explicou que a invulnerabilidade ainda estava ativa na pele da fera e que havia gasto todo o fio de sua faca tentando chegar na carne, em diferentes pontos.

De qualquer modo, seria uma viagem terrível até Micenas, pois o corpo da fera já estava começando a exalar o cheiro da morte, que não só se tornaria insuportável quanto atrairia todo tipo de carniceiro para o herói. Então decidiram que iriam achar uma forma de terminar o trabalho.

Foi durante a refeição matinal no dia seguinte que o velho teve uma ideia, por que não usar as poderosas garras do leão, para rasgar sua própria pele?

Hércules rugiu de alegria quando a garra penetrou, com dificuldade, na pele, fazendo escorrer o sangue negro e coagulado. Levaram quase dez dias para retirar a pele e curti-la, mas no final o prêmio fez valer o esforço. O Guerreiro poderia vestira a pele como uma capa e poderia viajar rapidamente.

Após queimarem os restos do leão de Neméia em sacrifício a Zeus, Hércules se despediu do velho e partiu, pedindo para que ele espalhasse a notícia de que não só o vilarejo quanto toda a região estavam livres dos constantes ataques.

Sem a carga, o herói chegou aos portões de Micenas em poucos dias de marcha, onde jogou a pele gritando pelo Rei. Euristeu enviou Copreu para confrontar Hércules, e correu para seus aposentos gritando quando viu a cabeçorra do felino mítico.

Copreu, jogando a pele de volta para Hércules, ordenou-o a aguardar na taverna onde seu sobrinho estava até ser convocado para um novo trabalho, mas admitiu, muito a contra gosto, que aquela missão havia sido cumprida.

Euristeu não saiu de seu cômodo, pegando no sono quase rouco de tanto gritar de ódio e medo, e naquela noite Hera invadiu seus sonhos novamente.

Continuaremos no final de fevereiro com o próximo trabalho!

Saudações mitológicas e até a próxima!

sábado, 25 de janeiro de 2014

Zeus x Odin - Participação especial no ACC

Bem vindo de volta caros aventureiros!

Estamos retomando as atividades do Mitologia Verta!

Algumas mudanças vão acontecer, entre elas a criação de um novo programa do MV, além dos contos!

Mas antes de começarmos, fui convidado pelo AlgumaCoisaCast para participar de uma de suas gravações, o programa foi publicado nesse sábado.

Nos divertimos muito tentando decidir quem era melhor: ZEUS ou ODIN!
Vejam a descrição no site deles!

http://www.algumacoisacast.blogspot.com.br/2014/01/11-algumacoisa-sobre-zeus-x-odin.html#.UuRMKRBTtdg


Escutem o cast usado o player do post ou baixando o arquivo AQUI!


Divirtam-se! E aguardem as novidades que virão!

Saudações mitológicas e até a próxima!

sábado, 4 de janeiro de 2014

Mitologia do Mês de Janeiro - CELTA

Olá meus caros!

Mais um mês está começando e precisamos oficializar a vencedora!

A batalha ficou acirrada, mas, na última semana, uma mitologia disparou na frente...
a CELTA!

Continuar Com a Grega
  2 (13%)
Celta
  5 (33%)
Japonesa
  2 (13%)
Hebraico-Cristã
  0 (0%)
Nórdica
  2 (13%)
Hindu
  2 (13%)
Egipcia
  2 (13%)

Vamos falar dessa mitologia natural e que é tão pouco conhecida, por ter sido transferida de boca-a-boca, sem deixar muitos registros, e apagada pela cristianização dos povos celtas.

Mas tenho certeza que todos irão gostar e descobrir que já viram muitas de suas referências por ai.
Afinal quem nunca ouviu falar de druidas, trasgos, gnomos e o seu mais maravilhoso símbolo: Stonehenge!







Como sempre, se preparem para um post informativo e depois muitos contos!

Se preparem para um mundo verde, sensual e guerreiro!

Saudações mitológicas e até a próxima!

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Ano Hercúleo - Prólogo

Bem vindo de volta meus caros!

Como prometido, este será o prólogo para o nosso Ano Hercúleo! Nesse conto, irei mostrar, de forma sucinta, como o grande heróis nasceu e se tornou o homem que é.

Espero que se divirtam e, no último conto de Janeiro/14, teremos o seu primeiro grande trabalho!


Hércules, um homem de musculatura e proporções enormes, rumava para a cidade de Delfos, onde buscaria os conselhos do famoso oráculo. Seus longos cabelos negros, emolduravam a face de tristes olhos da mesma cor, que lhe davam um ar ambíguo, tanto selvagem quanto o quadro da mais perfeita depressão.
Ninguém, ao seu redor, sabia do sofrimento que sentia, até os próprios deuses teriam dificuldade de entrar na mente turbulenta daquele homem em desespero. Não conseguindo, ele mesmo conter o turbilhão, Hércules virou para os céus e bradou, com sua voz grossa e tão similar a um rugido:
- Meus deuses! O que esperam de mim? Por que devo sofrer tanto? - E caiu de joelhos na estrada vazia.
Como se em resposta, vindo dos céus, uma coruja, com suas penas uma mescla equilibrada entre cobre e prata, pousou no ombro do gigante homem.
Ao visar os olhos do herói, a criatura divina viu apenas a expressão de um homem perdido e indagou:
- Caro Hércules, o que faz buscando a cidade de Delfos? Espera encontrar o perdão dos deuses?
- Minha cara Nikitmene, você esteve ao meu lado durante anos. Lembro de sua presença desde a minha mais tenra idade, mas me abandonou quando me tornei um homem e casei com Mégara.
- Nunca o abandonei, grande herói, apenas passei a observa-lo de longe. – Respondeu a coruja, com uma voz mansa e carinhosa – Fiquei ao seu lado enquanto Athena assim desejou, como agora.
- Athena?! – Questionou com surpresa – Então é para ela que responde! E que respostas me traz dos deuses? Serei para sempre um sofredor que mal sei de onde vim?
- Me siga Hércules, trago ordens de Athena e Zeus, para lhe contar toda a verdade. Você sempre se mostrou um homem bom e honrado, mesmo com todas as recentes amarguras, e agora irá saber de tudo.
Hércules se desviou do caminho usual e se embrenhou na floresta esparsa, sem temer homem ou fera, pois possuía a força de inúmeros guerreiros, a sabedoria de centenas de anciões e o conhecimento militar de milhares de generais. Ao encontrarem uma clareira adequada, se sentaram e a ave começou a contar toda a história.

- Você Hércules, é na verdade filho de Alcmena com o maior dos deuses, Zeus, o senhor do Olimpo.
- Eu sou filho de um deus? E quanto a Anfitrião?
- Ele é seu pai por criação, pois, como todo semideus, você não pôde viver ao lado de seu pai verdadeiro. Zeus tinha grandes planos para você.
Durante muitos anos, ele viu os helenos se degladiarem em guerras, contendas e disputas desnecessárias, até decidir que todo o povo grego deveria ser unificado embaixo de um único rei, um herói.
Para isso decidiu que ele mesmo teria que gerar tal homem e, buscando uma mulher adequada, acabou se apaixonando por Alcmena, descendente de Perseu, mas ela estava prometida para Anfitrião.
O casamento de ambos deveria já ter ocorrido, mas, por um golpe do destino, Anfitrião acabara matando acidentalmente o pai de Alcmena, que passou a se recusar de estabelecer laços com o assassino de Eléctrion.
Então, usando de seus poderes divinos e se aproveitando da situação, Zeus fez com que Alcmena aceitasse Anfitrião, desde que ele aceitasse a condição de entrar em guerra com os Teléboas, guerreiros com voz de trovão e antigos inimigos de Eléctrion, assim que os rituais de união fossem concluídos.
Por ainda amar Alcmena, Anfitrião não questionou tal pedido, por mais estranho que tenha parecido, e partiu para guerra antes mesmo do festim nupcial se iniciar.
Zeus acompanhou a guerra de seu trono no Olimpo, observando cada trejeito e conquista do guerreiro, e, após três dias de batalha, viu que os Teléboas estavam derrotados. Não perdendo tempo, o senhor dos deuses tomou a forma de Anfitrião e se apresentou para Alcmena, contando todas as proezas que fizeram em combate, numa atuação tão perfeita que enganaria qualquer mortal.
Recebendo tantos detalhes e reconhecendo os trejeitos de seu marido, Alcmena se entregou para Zeus e fizeram amor durante três noites.
Para lograr tal feito, Zeus enviou Hermes com ordens para três deuses, Hélios, o deus Sol, não deveria sair de seu palácio, Selene, a deusa da Lua, deveria retardar sua caminhada nos céus e, por fim, Hipnos, o deus do sono, deveria manter todos os mortais dormindo durante os três dias, para que estes não percebessem a sua passagem.
Dessa união apaixonada, você foi concebido, meu querido Hércules.
- Mas, se sou filho de Zeus e destinado a governar os gregos, por que estive casado com Mégara e, apenas, dono de algumas terras? – Questionou o herói, trocando sua posição para uma mais confortável, sua expressão de homem desgraçado já mais amena.
A coruja também se ajeitou e continuou, numa voz séria:
- É por causa de Hera. Como bem sabe ela é a deusa da família e abomina qualquer tipo de traição nupcial.
Próximo ao dia em que você nasceria, Zeus não se conteve mais e juntou todos os Olimpianos para contar sobre seu filho e seus planos de unificar a Grécia, dizendo em como o próximo filho da linhagem de Perseu iria se tornar o governante de todos os helenos.
Com o ciúmes correndo por suas veias e já bolando um plano para se vingar de seu marido, Hera pediu para que Ate, a deusa do erro, jogasse seu manto invisível sobre o grande deus e perguntou se ele confirmaria novamente essa previsão.
Com o peito cheio de orgulho, seu pai jurou sobre as águas do rio Estige, que percorre o mundo dos mortos, que todos os mortais se curvariam para o próximo bebê que nascesse com o sangue de Perseu.
Vendo o pacto selado, Hera buscou a ajuda de Ilítia, a deusa dos partos, para que retardasse o seu nascimento e acelerasse a vinda de seu primo, Euristeu, para o mundo, mesmo que na forma de uma criaturinha miúda e fraca.
Ao saber de toda a artimanha, Zeus, lançou Ate para fora do Olimpo, banindo-a eternamente para o mundo mortal, e tornando o erro algo apenas relacionado à humanos, mas não poderia voltar atrás de suas palavras. Anos depois, Euristeu, o qual se mostrou um homem mesquinho, débil e ardiloso, se tornou o rei de Micenas, pois não foi capaz de unificar toda a Grécia.
Porém, o grande deus não deixaria seu filho desamparado, pois sabia que Hera iria perseguí-lo até o fim dos tempos, uma vez que ele ainda seria um grande herói, responsável por inúmeros feitos fantásticos, e mandou que Athena cuidasse de você.
E assim começou a sua história.
- Agora começo a entender porque você esteve ao meu lado. – Ponderou Hércules – Corujas sempre foram um símbolo da deusa da sabedoria.
- Sim, eu fui enviada para observar você e lhe passar todo o conhecimento Olimpiano, tornando-o culto e sábio, assim como proteger você desde o segundo dia.
- Segundo dia? Athena não deveria ter me vigiado desde o começo?
- Sim, mas, no primeiro dia, ela lhe deu um presente mais valioso, sua força e invencibilidade. Quando você nasceu, Athena avisou Alcmena sobre os ataques da deusa, e a aconselhou a esconder você no campo, o que foi feito sem demoras.
Utilizando-se de sua infinita inteligência, Athena saiu para caminhar com Hera e fez com que ela passasse próxima do seu esconderijo, para que você fosse encontrado.
Hera, não desconfiando da filha de Zeus, pensou ter encontrado um bebê qualquer, que estava abandonado, e o alimentou com seu leite divino, lhe conferindo força e velocidade sobre-humana, assim como uma resistência muito maior daquela de qualquer outro mortal.
Naquela noite, você foi levado de volta para o palácio de Alcmena e Anfitrião, onde conquistou seu primeiro ato heroico.
Athena estava explicando para sua mãe e seu pai adotivo tudo o que havia ocorrido no Olimpo, e como você deveria ser criado com amor e dedicação, acreditando que tudo estava calmo no outro cômodo. Porém, vendo uma abertura na sua proteção, sem saber que você havia bebido o leite mágico, Hera enviou duas enormes serpentes, que rastejaram silenciosamente e o atacaram.
Ao escutarem o estardalhaço, os dois mortais e a deusa, correram para ver como você estava, mas era tarde demais. No chão do quarto, encontraram apenas as carcaças sem vida das víboras, que não resistiram à sua força e invencibilidade e foram estranguladas até a morte.
Naquela mesma noite, Athena me convocou e eu fiquei ao seu lado até a vida adulta, não só garantindo tudo que já lhe mencionei, mas, também, encontrando os melhores mestres e tutores nas artes da cultura e da guerra, para que você fosse moldado com o maior de todos os heróis.
- O maior de todos os heróis? – Riu Hércules, tristemente, seus olhos se enchendo de lágrimas – Você partiu quando eu me tornei um homem, então deixe-me contar como minha vida seguiu até esse dia:
Realmente, Anfitrião me criou como a um filho, me ensinou a guiar carros de combate, manusear a espada e o arco, assim como convocou os melhores para me ensinarem a arte da guerra, da música, da ginástica e das letras e, durante anos, eu fui feliz e heroico, pois matei o leão que atormentava os rebanhos de meu amigo Téspio e comandei as tropas que livraram o reino de Tebas e seus arredores dos terríveis homens de Orcômeno, senhor da guerra que vinha conquistando e escravizando toda a Grécia.
Essa última conquista me proporcionou minha maior felicidade e minha maior desgraça, pois Creonte, rei de Tebas, me agradeceu com a mão de sua filha Mégara, uma mulher maravilhosa, e me tornando o sucessor do trono.
Deveria ter suspeitado de minha linhagem, uma vez que fui presenteado pelos deuses, no meu casamento, com uma couraça completa, uma espada afiadíssima, um arco sem igual e um escudo que, até agora, se mostrou indestrutíveis, todos esses itens feitos do mais puro ouro, assim como dois cavalos velozes como o mar em tempestade.
- Me lembro disso. – Comentou Nikitmene – Lembro também de como foi difícil manter sua mente longe dos deuses, para que não pensasse sobre sua descendência. Foi a última vez que nos vimos.
- Sim, aquela foi a última vez e os anos seguintes foram os mais felizes de minha vida, continuei me aventurando e Mégara me presenteou com três lindos filhos. Mas, num momento de total loucura, acreditei que estava sendo atacado por três dragões, num palácio amaldiçoado, e os ataquei sem perdão, assim como destruí sua morada.
Após horas de combate e destruição, minha visão se turvou e vi que, na realidade, eu havia acabado com o palácio de Creonte, deixando apenas blocos de rochas espalhados que, uma vez removidos, me mostraram a pior visão que já tive, os corpos de três crianças dilaceradas.
Eu, sozinho, havia executado meus próprios filhos.
Sem poder me conter, abandonei minha casa, sob as ameaças de Mégara, a mulher que eu amei, me envenenar durante o sono como vingança, e vaguei pelo mundo sem destino. Até que, conhecendo um viajante, fui informado sobre o Oráculo e decidi ir até Delfos, descobrir porque sou tão amaldiçoado.

A expressão de Nikitmene era sóbria, mesmo para uma coruja, e, usando o tom mais reconfortante que conseguiu, assumiu:
- Eu já sabia de sua história, pois vivo no Olimpo. Mas agora você sabe de tudo que aconteceu sem o seu conhecimento e peço para que não se sinta tão desolado. Pois a morte de seus filhos foi arquitetada.
- Arquitetada? – Rugiu Hércules.
- Sim. – Continuou a ave, levantando voo até uma distância segura do homem que se pôs de pé e começou a tremer de ódio – Hera não tolerou sua felicidade e, por isso, fez com que Ate o cobrisse com seu véu, para que entrasse num estado de loucura e fizesse o que fez. Ela quer sua ruína.
Sentindo sua ira fervilhar, ardendo ao lado de sua frustração e sensação de impotência perante as maquinações dos deuses, Hércules questionou o que deveria fazer.
- Continue sua viagem para Delfos, encontre o Oráculo, mas faça a pergunta certa. Descubra o que deve fazer, para que seu crime seja perdoado pelos deuses.
- Meu crime?! Eu fui induzido à loucura e ainda tenho que me remediar por isso? Para que uma deusa qualquer fique satisfeita?
- Infelizmente sim. – Respondeu a coruja, alçando voo para os céus – Mas você não estará sozinho, seu pai pediu para que Athena fique sempre ao seu lado, e ela irá fazer isso.
Vendo a sombra da ave desaparecer no horizonte, Hércules deu vazão à sua cólera, e a clareira passou a ter quase quatro vezes o seu tamanho anterior quando o herói voltou para a estrada e rumou para Delfos.


Por carregar tesouros de Tebas, Hércules foi recebido com rapidez pelos sacerdotes do templo de Apollo, morada do Oráculo de Delfos. A mistura de cheiros do lugar era nauseante, fazendo a respiração se tornar trabalhosa e deixando a mente com pensamentos leves.
O gigante teve dificuldades de colocar sua mente em ordem, antes de proferir a pergunta que desejava.
A jovem virgem, envolta em gases saídos do chão, se curvou e grunhiu em uma linguagem desconhecida para o herói, que teve de ser traduzida por dois velhos sacerdotes, cujos olhos cheios da mais pura luxúria não se afastavam das curvas quase infantis da moça.
- Você deverá ir para Micenas, se colocar ao serviço de seu primo Euristeu, quem lhe demandará dez trabalhos. Se tiver sucesso em cumprir tais empreitadas, seus crimes serão perdoados e você poderá buscar novamente sua felicidade e será também recompensado da forma mais inesperada e divina.
Sem tolerar mais os odores e o olhar dos sacerdotes e sem ter mais o que ouvir, Hércules se retirou do templo, sentindo seu coração mais leve ter encontrar uma forma de conseguir o perdão, não dos deuses, mas de seus próprios filhos.

E seguiu para Micenas, rumo à cidade que o faria o herói mais famoso e reconhecido de toda a história.

E é assim que todo o teatro foi montado pra nossa aventura!

Só me resta agora desejar a todos vocês um excelente 2014, que promete vir com muitas novidades aqui no Mitologia Verta!

Saudações mitológicas e até a próxima!


quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Teaser do Ano Hercúleo - Apoio do AlgumaCoisaCast

Olá caros aventureiros do mundo mítico!

2014 está chegando e o Mitologia Verta bolou algo especial para o ano que está começando!
O site irá continuar com os contos semanais, como de costume, focado em uma mitologia por vez, mas com uma pequena diferença:
Cada último conto dos meses de 2014 será direcionado para ninguém menos que o maior herói de toda a Grécia, Hércules! 


Estou preparando um conto especial para encerrar 2013 com a origem desse semideus, filho de Zeus e eternamente atormentado por Hera, e, no ano que vem, cada mês irá retratar um de seus inigualáveis trabalhos!


E, para se prepararem, este post terá o apoio dos meus caros amigos do Alguma Coisa Cast, Marco Febrini e Giovani Arieira, que, algum tempo atrás, fizeram um podcast cheio de humor sobre esse grande herói!


Escutem direto no player do blog:


Ou baixem o arquivo clicando AQUI!!

E recomendo fortemente visitar o blog desses caras, semanalmente eles produzem podcasts insanos!
http://algumacoisacast.blogspot.com.br/

Espero que se divirtam! E, em breve, a saga do homem mais forte dos mitos irá começar!

Saudações mitológicas e até breve!


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Semi-Deuses Pt01

Bem vindos de volta!
Desculpem pelo atraso no post do meio da semana! Mas isso não acarretará num atraso do conto semanal!

Além dos  deuses, é usual que cada mitologia tenha sua cota de semi-deuses e heróis e a Mitologia Grega não é diferente!

Os Semi-Deuses são filhos de um dos Olimpianos, ou outro ser mágico, com um mortal e, em geral, são os grandes heróis nas lendas.

Nesse post eu quero falar de alguns deles, pois são inúmeros (uma vez que Zeus, sozinho, é responsável pelo nascimento de uma dezena) e não daria para falar tudo de uma vez.

Espero que se divirtam e, caso sintam falta de algum em especial, deixem um comentário que eu escrevo sobre ele!

Então, vamos lá!

Aquiles/Achilles:
Filho da ninfa Thetis e do mortal Peleus, rei dos mirmidões, uma dinastia de guerreiros ferozes.
É um dos heróis, talvez o mais famoso, da guerra de Tróia, responsável pela morte de Heitor, herói Troiano, em combate singular nos portões da cidade. Cena que ficou muito bem retratada no Filme "Tróia" estrelado por Brad Pitt.


Lendas contam que seu corpo era invulnerável, pois sua mãe o teria mergulhado no rio Estige (rio do submundo), segurando o bebê pelo calcanhar, única parte que não teve contato com a água mística, se tornando seu único e fatídico ponto fraco.



Sua história termina no final da guerra de Tróia, quando seu ponto vulnerável é atingido por uma flecha envenenada disparada por Paris, o qual havia caçado o herói pelas ruas da cidade com o intuito de vingar a morte de seu irmão, Heitor.


Por ter tantos feitos em batalha, assim como sangue divino, Aquiles é enviado por Zeus diretamente para a Ilha dos Abençoados, onde passou a eternidade num paraíso.

Asclépio/Asclepius:
É um semi-deus que representa a cura e a medicina. Filho de Apollo e de uma mortal, Coronis, que foi morta por ter traído o marido com um deus.
Coronis foi condenada a arder numa pira, mas Apollo, num ato de misericórdia, abriu a barriga de sua amante, acabando com seu sofrimento, e retirando Asclépio do corpo em chamas.


O bebê foi entregue ao centauro Quíron, grande tutor de heróis e sábios, que o criou e o educou nas artes médicas.


Mesmo sendo versado na cura, Asclépio só se destacou quando, após salvar uma serpente (símbolo grego da sabedoria, cura e ressurreição), esta lambeu seus ouvidos e lhe passou todo o conhecimento secreto destas artes.
Com isso, o semi-deus superou seu mestre e seu pai (Apollo era considerado o deus da cura) e se tornou o maior de todos os médicos, tomando, como seu símbolo, o cajado e a serpente, que são utilizados até os dias atuais e é muito confundido com o símbolo de Hermes, o Caduceus.


Asclépio se tornou tão proficiente em curar, que passou a ser capaz de ressuscitar os mortos. Isso acabou sendo a causa de sua própria morte, pois, ao trazer os defuntos de volta à vida, o semi-deus encolerizou Hades, por motivos óbvios, e Zeus, por aumentar demais a população, acabando fulminado por um raio do senhor do Olimpo.
Porém, para evitar rixas com Apollo, Zeus transformou espírito e corpo de Asclépio na constelação de Ophiucus, ou "Aquele que detém a serpente".


Teseu/Theseus:
Teseu foi um filho de dois pais, pois sua mãe, Aethra, uma princesa de Troezen, se deitou, na noite de núpcias, com Aegeus, rei de Atenas, e com Poseidon, deus dos mares e terremotos.
Quando sua esposa ficou grávida, Aegeus decidiu que voltaria para Atenas, mas iria deixar uma herança para seu filho, de modo que Teseu pudesse ser reconhecido no futuro, quando encontrasse eu pai. Como herança, ele levou Aethra até um lugar secreto, enterrou suas sandálias, sua espada e seu escudo e colocou uma pedra em cima, alegando que, se Teseu se tornasse um herói e homem digno, ele conseguiria remover a rocha do lugar e ter seu lugar de direito em Atenas. (Espada+Pedra+Ser Digno=Virar Rei, já vi isso em alguma outra história mais moderna...)


Após ser criado no reino de sua mãe, Teseu foi levado até o lugar definido por seu pai, conseguiu levantar a rocha e Aethra lhe contou toda a sua história, inclusive sobre a parcela de divindade que corria em suas veias.
De posse de sua herança, o herói decidiu que iria conhecer seu pai em Atenas. Para isso, poderia seguir por dois caminhos, por mar, trajeto mais simples e seguro devido à proteção de Poseidon, ou por terra, seguindo por uma trilha com seis entradas do submundo, muito mais perigosa.
Querendo mostrar seu valor e coragem, Teseu decide ir por terra e inicia sua primeira aventura.


Teseu passou por diversas aventuras, mas nenhuma delas é tão grande quanto sua luta contra o minotauro, no labirinto criado por Dédalo. Nela, o herói usa sua inteligência, e um pouco de ajuda divina, para chegar ao centro do labirinto, matar a besta e sair vitorioso da enigmática construção.


Em contraponto aos seus feitos, Teseu teve uma morte simples. Quando Atenas foi invadida pelo povo da ilha de Skyros, o herói e rei da cidade foi jogado de um penhasco por Lycomedes, líder do exército inimigo.
Seu corpo foi encontrado tempos depois, quando Atenas recuperou sua hegemonia, e Teseu pôde ser sepultado em seu palácio.

Além desses Semi-Deuses, ainda temos outros de grande fama, como Hércules, Perseu, Jasão e Orfeu, que irei abordar futuramente!
Todos eles, mencionados ou não, merecem contos e posts particulares, e os terão, pois suas histórias são tão complexas e elaboradas quanto a vida de qualquer herói.

Saudações mitológicas e até breve!

sábado, 7 de dezembro de 2013

A dama das sombras e o ciclo das estações

Bem vindos de volta, meus caros!

Uma coisa interessante sobre a mitologia grega, em relação às nossas crenças usuais, é o fato de Hades ser o senhor do submundo não significar que ele é o senhor do inferno.
Bem, ele é TAMBÉM o senhor do inferno, pois o submundo comporta toda a região para onde iam os mortos, bons ou ruins, e esse local é dividido em diversas áreas, pois o "céu", que seria o Olimpo, é um local apenas para deuses e seus escolhidos.

No conto abaixo, todos vocês poderão ter uma boa ideia de como funcionava o submundo e de brinde ainda vou contar como os gregos explicavam a passagem das estações.

Espero que curtam! E peço desculpas, de ante mão, pelo tamanho, mas eu não quis escrever nada "corrido" demais.


Zeus, o senhor do Olimpo, estava em seu trono discutindo ferrenhamente com sua esposa Hera, deusa da família e do casamento, pois ele acabara de retornar de uma cidade mortal, onde havia se transformado num jovem guerreiro, cortejado uma nobre princesa e dormido com ela.
- Eu irei amaldiçoar qualquer criança ou criatura que aquela humana parir! - Gritou a deusa, apontando em direção à base do Olimpo.
- Minha querida, - respondeu Zeus, em um tom apaziguador - não há perigo de isso ocorrer, pude sentir sua energia vital e ela não estava fértil naquele dia.
- Isso não me interessa! Você é um deus, sabe-se lá do que é capaz de fazer. Deveria era respeitar nosso casamento! Até agora o único filho que teve comigo foi Ares, o deus da guerra!
- Ah! E é o meu filho mais poderoso! Temido por todos! - Animou-se o deus e, tentando abraçar a esposa, adicionou, com sua voz mais sedutora - Se a questão é essa, podemos fazer com que engravide novamente.
Hera virou as costas para Zeus, acertando seu rosto com longos cabelos castanhos, e se afastou do alcance dos braços musculosos.
- Você é um ingrato! - Tornou a falar, sem olhar o marido, mas sua voz estava trêmula, entre o desejo de ser acalentada e a vergonha de ter sido traída.
Antes que o deus pudesse responder, o ambiente se tornou gelado e ligeiramente mais escuro e uma voz grave e cavernosa ecoou pelo salão:
- Concordo com você, querida irmã, se eu tivesse uma esposa bela como você e que me amasse como ama seu marido, eu estaria disposto a fazer qualquer sacrifício para vê-la feliz!
O casal de deuses olhou na direção da voz, onde a luz turvou levemente e revelou a imagem de um homem alto e musculoso, de pele muito clara, como alguém que não se expõe ao sol por muitos meses, e cabelos negros como a escuridão. Em sua mão direita portava um longo garfo de duas pontas, feito da mais pura prata e magnificamente ornado com símbolos e traços em sua haste, enquanto a mão esquerda retirava da cabeça um elmo dourado, no melhor estilo espartano, com uma plumagem escura e acinzentada, que Zeus sabia ter sido retirada da juba de uma quimera muito antiga e poderosa.
Hera o olhou no fundo dos olhos, da cor do mais profundo abismo, e segurou sua respiração por poucos segundos, até ver um enorme sorriso surgir no rosto pálido, então relaxou, abriu um sorriso carinhoso e caminhou até o recém chegado para recebê-lo com um abraço:
- Meu querido irmão Hades! Há muito tempo que não o vejo. Seu lugar de honra aqui no Olimpo está ficando empoeirado.
Hades, riu do comentário enquanto abraçava sua irmã, sabia que nada ficaria desrumado no Olimpo, não enquanto Héstia, a deusa da organização doméstica, estivesse por perto. Ao se soltar, virou-se para Zeus e, com uma leve mesura, saudou:
- Meu senhor e irmão, espero não ter chego em má hora.
- Não, de forma alguma. Hera e eu estávamos apenas conversando sobre coisas triviais. - Respondeu, aliviado por ter um motivo para que a discussão não continuasse - Deveria ter sabido que estava vindo, você sempre gostou de entradas triunfais.
- Não sou o senhor do submundo por mero acaso. A almas que vêm para mim sempre se surpreendem, com coisas boas ou, em muitos casos, terríveis. Mas, respondendo a dúvida de minha cara irmã, - se virando para Hera - não posso abandonar meu reino por muito tempo, os humanos tem a constante mania de morrer, a todo momento tenho que receber as almas enviadas. Acredito que o único deus mais ocupado que eu, é Hermes, quem tem de levar todos esses espíritos para o mundo abaixo.
- E o que o traz ao nosso palácio, caro irmão? - Questionou Zeus, intrigado.
- A solidão, senhor dos raios, por mais populoso que seja meu domínio, sinto falta de poder conversar abertamente, de deus para deus, e também do conforto vindo do amor de uma esposa, algo tão raro quanto almas dignas de ir para a Ilha dos Abençoados. Vim lhe pedir permissão de escolher uma deusa para reinar ao meu lado.
- Escolher? - Perguntou Hera - Nenhuma das deusas se interessou por você? Um deus tão poderoso e dedicado?
- Não, por mais que muitas das divindades gostem de minha companhia, todas temem ter de viver eternamente no submundo, que, apesar de seus locais agradáveis, é o palco de tantas punições e horrores. Ficar longe do sol, longe dos outros deuses, sempre é visto como um castigo.
- E no que está pensando, meu irmão? - Desconfiou o senhor do Olimpo, se sentando mais ereto em seu trono, pronto para passar seu julgamento - Diga sem pestanejar, o que deseja?
- Desejo raptar uma das deusas não casadas, não desonraria nenhum deus com tal ato, para que eu possa provar para ela o quanto pode-se aproveitar de uma vida no submundo.
- Fora de questão. - Bravejou Zeus, sua voz ecoando como um trovão - Não permitirei que tome tal atitude contra qualquer morador do Olimpo.
Hades estava pronto para isso, não esperava uma resposta positiva de Zeus, mas, antes de poder iniciar sua argumentação, Hera gritou mais alto e com mais raiva que seu marido:
- Fora de questão? Ele será um marido melhor do que qualquer outro! Hades saberá dar valor à uma deusa que esteja disposta a abandonar o Olimpo e ir viver em seu reino. - e, mudando o tom de voz numa fração de segundo, completou do modo mais inocente que conseguia - Se deseja meu perdão, meu querido marido, dê uma chance a Hades, permita que ele tenha a oportunidade de criar sua família.
Zeus pensou por alguns minutos, puxando fios de sua longa barba grisalha. Sabia que seu irmão, mesmo sendo o senhor dos mortos, não era um deus mau e sua vontade de fazer as pazes com Hera fizeram com que decidisse à favor de seu irmão. Considerando a honra das deusas e o risco de entrar em conflito com outros deuses, propôs para Hades:
- Muito bem. Poderá raptar uma deusa, desde que respeite três condições. Não poderá escolher escolher Artemis, quem desejou se manter virgem por toda eternidade, também não poderá usar de violência para seu rapto, não quero nenhuma das belas divindades sendo ferida, e, por fim, após levá-la ao mundo inferior, você deve conquistá-la, pois ela poderá escolher, de livre vontade, se deseja ficar ao seu lado ou não.
- São condições extremas! - Protestou Hades, que nunca conseguíra convencer nenhuma das deusas a ir conhecer seus domínios.
- Minha proposta é final. - Determinou Zeus - Aceita?
Engolindo sua ira, Hades aquiesceu, agradeceu sua irmã pelo apoio e se retirou com uma mesura quase agressiva, vestindo seu elmo, que o tornou invisível novamente. O casal percebeu que o senhor dos mortos estava longe quando o ar voltou esquentar e um dos raios do sol vespertino entrou novamente pela janela, iluminando o rosto de Hera, que torcia para que tudo se resolvesse.

Hades não sabia se comemorava ou se explodia de raiva. Como raptar uma deusa sem usar da força bruta? E, principalmente, quem ele deveria escolher?
Afrodite e Athena estavam fora de cogitação, ambas se recusariam a permanecer longe do pai, além de que a primeira era amante de Ares, com quem Hades não desejava entrar numa rixa de sangue, e a segunda tinha tantas intenções de permanecer virgem quanto a irmã de Apollo.
Já estava vendo, no horizonte, a região vulcânica do Vesúvio, entrada do mundo subterrâneo, quando sentiu a energia pulsante de um deus. Olhando ao redor percebeu, próxima a um depósito de enxofre, uma linda mulher, de cabelos tão negros quanto os seus e, se possível, pele mais alva que a sua própria, ajoelhada, coletando pequenas flores amarelas que nasciam apenas ali.
Percebendo o deus se aproximando, a jovem se levantou assutada, permitindo ser reconhecida.
Perséfone, filha de Zeus e da deusa das colheitas, Deméter, era uma das deusas da nova geração, seu corpo era esguio e sensual e seus olhos tão azuis que beiravam o cinza. Ela sempre vagava pelo mundo dos homens, olhando o trabalho de sua mãe, para poder ajudá-la no crescimento das constantes plantações.
- Senhor Hades. - Disse, numa voz firme e já sem medo - Não esperava encontrar com o senhor aqui.
- Caminhando pelas portas do meu reino? Aqui é um lugar muito propício para me encontrar. O que esta fazendo nessa região, não há plantações aqui onde a lava do vulcão ainda atinge o solo, vez ou outra, e por que pareceu tão assustada ao me ver?
Perséfone corou levemente e mostrou o pequeno buquê amarelo que segurava:
- Essas flores precisam do magma misturado ao solo para crescer, só posso colhê-las nessa região. - então continuou, corando ainda mais e com um novo temor em sua voz - Quanto ao susto, antes de ver o senhor, senti apenas a aura divina. Achei que fosse o sanguinário Ares, quem vem me perseguindo nos últimos tempos, buscando em mim uma nova diversão.
- Violência e morte realmente não se adequariam a uma bela e delicada jovem como você. - Respondeu Hades, com sinceridade e o tom mais reconfortante e protetor que sua voz grave era capaz de fazer.
Para sua surpresa, os olhos claros da deusa brilharam em desafio, antes de responder:
- Sim, nas formas levianas e desnecessárias tão amadas pelo deus da guerra, mas você, senhor do mundo inferior, deve saber, melhor do que ninguém, dos seus valores, uma vez que a morte é parte da vida dos homens e, se as histórias forem verdadeiras, a violência também é muito comum no seu reino.
O argumento de Perséfone deixou Hades sem reação, que apenas concordou em silêncio, lembrando de tudo que é feito nos campos da punição, e começou a caminhar rumo ao vulcão. Escutou, após alguns passos, a deusa dizer, numa voz aflita:
- Perdão se o ofendi, senhor. Entendo como funciona a vida e a morte, só não aprecio quem a aplica de modo desnecessário.
O senhor dos mortos apenas acenou em resposta, sem se virar ou parar. Sua mente já estava correndo freneticamente pensando em como raptaria aquela jovem, mas sem ferir um fio de seu cabelo.

A entrada do mundo inferior era uma caverna na base do vulcão, um local quente o suficiente para que nenhum humano se aproximasse por engano, mas, ao passar da entrada, a temperatura voltava ao normal.
Hades desceu pelo túnel até encontrar o rio Estige, onde Caronte, um barqueiro esquelético e coberto por uma capa negra, aguardava para transportar as almas que pudessem pagar, quando o corpo era enterrado com uma moeda em seu olhos ou embaixo da língua, até o mundo dos mortos.
- Mestre Hades. - Saudou o barqueiro, com sua voz etérea - Posso levá-lo até o outro lado?
- Sim. E, enquanto fazemos a travessia, me responda uma coisa. Você que já transportou tantas almas e criaturas, como faria se tivesse de levar alguém contra sua vontade, mas sem ferir e sem usar a força bruta?
- Meu senhor, de tantos mortos que passam por aqui, mais da metade terminou sua vida sem vontade de fazê-lo, mas todos estavam dispostos a se sacrificar, sempre seduzidos por algo que amavam, seja outra pessoa, ouro ou poder...
- Ou uma flor! - Exclamou Hades - Já sei quem poderá me auxiliar. Caronte, me leve até o Tártaro.

O Tártaro era o abismo mais profundo do submundo, um lugar escuro e também uma prisão inexpugnável onde eram mantidos os titãs que lutaram contra os deuses e foram vencidos na Titanomaquia. Mas não era exatamente nesse abismo que Hades desejava ir, ao lado da entrada foi construído um pequeno altar, dedicado à mãe terra, que não se envolveu nos combates, porém desejou permanecer próxima ao seu marido, o titã Uranus, ou caos.
Se curvando perante ao altar, o deus do mundo inferior clamou:
- Gaia, mãe terra e minha avó, preciso de sua ajuda!
- O que precisa de mim, Hades, deus das almas? - Respondeu a voz de Gaia, retumbando pelo próprio terreno.
- Desejo raptar Perséfone, mas não quero, nem devo, lhe fazer mal. Só assim poderei trazê-la até o submundo e conquistá-la, para que se torne minha esposa.
- Irei ajudá-lo, pois sinto sua solidão, mas, se destratá-la de algum modo, a fúria dos titãs cairá sobre você e perderá seu reino.
- Estou de acordo. O que devo fazer? - Questionou Hades.
- Aguarde meu aviso, sei de tudo que ocorre na terra, pois este é o meu corpo, e vi a paixão da deusa pelas flores. Irei seduzir Perséfone com um narciso encantado e a lançarei aqui nas profundezas, onde você deverá estar esperando para recebê-la. - Respondeu Gaia, retornando ao seu indecifrável silêncio.

Hades aguardou pacientemente o aviso da titã, até que, dias depois, Radamanto, senhor dos Campos Elísios, avisou seu mestre do local onde Perséfone chegaria em breve.
Escolhendo seu melhor manto e usando sua carruagem voadora de ouro e platina, Hades foi até o lugar marcado, onde viu a terra se abrir, acima de sua cabeça, e Perséfone cair pela fissura.
Quando a agarrou no ar, o deus viu que a jovem estava em transe, segurando firmemente um narciso amarelo, muito similar com as flores que nasciam nas proximidades do vulcão.
Sendo o mais delicado possível, Hades retirou a flor da mão de Perséfone, que voltou a si segundos depois, e disse:
- Bem vinda ao submundo. Não tenha medo, não irei machucá-la. - Oferecendo um buquê de flores douradas.
Perséfone ficou atônita por uns instantes, antes de se dar conta com quem e onde estava e o que era aquele maravilhoso ramalhete.
- O que estou fazendo aqui? - Perguntou, pegando de modo incerto o presente, mas se desvencilhando dos braços de Hades.
- Lhe peço uma chance de mostrar meu reino. Ver que a morte não significa violência, algo que existe aqui, mas não com a abundância que a maioria acredita.
- Por que deseja me mostrar isso? Irá me matar? - Sua voz tremia de medo.
- Não! Nunca! - Apressou-se, Hades, em responder - Seu comentário me fez acreditar que você, entre todas, pode ver o real valor do que é feito aqui, como você mesmo disse. E também - adicionou, tirando um enorme diamante do bolso e entregando para a deusa - se dar conta das inúmeras belezas e riquezas desse lugar.
A voz agradável do deus, e a visão da raríssima pedra, fizeram com que Perséfone se acalmasse e dissesse, já em um tom mais sereno:
- Estou de acordo com visitar seu reino. Só peço que me pergunte diretamente, numa próxima vez que desejar minha companhia, pois não tenho o coração fraco de uma donzela e a inocência, perante a vida e a justiça, de uma criança.
Hades se sentiu ainda mais atraído pela deusa, por seu espírito e sua visão. Voaram então pelo submundo, começando pelo próprio Tártaro, onde Hades depositou o narciso mágico no altar, como oferenda e agradecimento à Gaia.
Seguiram então para os Campos de Asfódelos, circundado nove vezes pelo rio Estige, um vasto prado tedioso, onde as almas das pessoas que levaram uma vida comum vagavam pela eternidade, continuando na mesma rotina sem graça ou futuro que levaram durante seus anos em terra. Perséfone se impressionou com o silêncio do lugar, uma vez que as almas não emitiam ruído algum ou mesmo falassem umas com as outras, pareciam apenas se ignorar e focar em sua própria invariabilidade.
A próxima parada foram os Campos Elísios, um lugar muito mais alegre, onde heróis mortos e as pessoas comuns que tiveram uma vida correta e virtuosa passavam a eternidade, numa existência fácil de constantes festas e nenhum trabalho. Mais uma vez a deusa se viu espantada, pois aquela região do submundo possuía um céu, ou pelo menos a ilusão de um, com um sol e nuvens. Hades explicou que aquele era um local de reconhecimento para as boas e distintas almas, e que um ambiente cavernoso e escuro nunca poderia ser considerado um prêmio digno, por isso tudo havia sido adequado para que a eternidade ali fosse a mais tranquila possível.
- Mas, isso ainda não é tudo. - Disse o deus, enquanto voavam em direção a um enorme lago, no centro dos Campos - Vê aquela ilha? Ali é onde fica o meu palácio e onde a verdadeira alegria se encontra.
A ilha era conhecida como Ilha dos Abençoados, onde Hades construíra sua morada, com grandes pedras escuras e cristais esverdeados. As almas que habitavam essa ilha eram àquelas que realmente iriam experimentar o paraíso eterno, tendo seus desejos realizados e todo o conforto e satisfação que pudessem imaginar. Foi explicado para Perséfone que para estarem naquele lugar, as almas tiveram que passar pela provação final, pois, quando uma alma era eleita para descansar nos Campos Elísios, ela podia escolher ficar lá ou reencarnar e, caso ela fosse digna dos Campos em três vidas seguidas, o espírito provara para todos seu caráter especial, sendo, então, convidado para degustar a eternidade no paraíso, junto ao deus dos mortos.
Durante a visita, Hades conversou constantemente com a jovem e seu afeto por ela foi crescendo rapidamente, vendo seu interesse em todo o seu reino, mas ficou realmente apaixonado após saírem da Ilha dos Abençoados, onde pararam alguns dias para desfrutar das delícias do palácio, quando Perséfone perguntou:
- E quanto às almas dos humanos maus, perversos, assassinos e estupradores? Não vi você comentando deles em nenhuma das regiões que passamos.
- Você tem real interesse em saber? - Questionou Hades, incerto - Temos um lugar para eles, que evitei de propósito.
- Entendo o que quis fazer - respondeu a deusa, numa foz séria, mas acariciando de leve o braço de Hades - e fico grata por isso, pois sei, agora, que você é capaz de ser justo com os humanos e generoso com quem merece, por isso te digo que tenho interesse, sim, em saber se sua justiça também é adequada para aqueles que só trouxeram desgraça e tristeza para seus semelhantes, pessoas com o espírito pútrido como o de Ares, que tentou me ter a força tantas vezes.
A agressividade e força no tom da deusa fizeram com que Hades se sentisse, finalmente, junto com alguém digno de dividir sua coroa e, satisfeito, respondeu:
- Vou lhe mostrar o lugar, mas, antes, se ama tanto a justiça irei lhe apresentar meu juiz, o rei Minos.

A carruagem atravessou o ar e seguiu, através dos Campos de Asfódelos, até uma região onde o ar era insuportavelmente quente e, ao mesmo tempo, gelado. Toda a área a frente de Perséfone era cercada por uma muralha altíssima, atrás da qual se podia ver chamas subindo, lava escorrendo, geadas, tempestades de areia e furacões terríveis, assim como podia-se ouvir o tilintar de metal, o borbulho de ácidos e o chiado de carne sendo queimada, tudo isso abafado pelos infinitos gritos de dor e sofrimento.
Hades, olhou para a deusa ao seu lado, esperando uma expressão de horror e pena, mas encontrou apenas a face impassível de alguém que sabe que a justiça estava sendo feita e que as punições eram merecidas.
Pousaram em frente à única abertura na muralha, uma enorme porta, ao final de uma escadaria, onde uma fila de almas esperava impassivelmente para entrar e, como Perséfone imaginava, serem julgadas, pois uma fila muito menor saía pela porta e seguia em direção aos campos entediantes.
A porta dava para um gigantesco salão, onde havia uma mesa de centro e na qual se sentava um enorme rei humano, ou quase, pois possuía uma cauda de serpente que ele usava como um chicote para atiçar a fila à andar e, também, prender e arrastar de volta qualquer alma que tentasse escapar.
O rei Minos, com sua barba grisalha e coroa cravejada de rubis, precisava de apenas alguns segundos para visualizar toda a vida do espírito à sua frente e passar seu julgamento, indicando para que a alma retornasse por onde havia vindo e vagasse pela eternidade ou agarrando a alma e a atirando por trás do ombro, através de uma outra porta que dava para um mar de lava, onde o infeliz iria iniciar seu tomento eterno. Raras vezes o rei soltava uma gargalhada de satisfação, batia levemente nas costas de um espírito e o convidava a ir de volta até o rio Estige, onde entraria novamente na barca e poderia escolher se seguiria até os Campos Elísios ou reencarnaria.
Perséfone tentou conversar com o juiz, mas esse se desculpou alegando que não poderia parar agora com seu trabalho, ou a fila iria fugir de seu controle, e estalou o rabo-chicote que se enrolou na perna de uma alma, que acreditara na distração do rei e tentara escapar, e a jogou sem julgamento algum no lago de lava derretida.
A deusa, então, se aproximou da porta para o inferno, para ver melhor o que realmente se encontrava atrás da grande parede de pedra. O local não poderia ser descrito de outra forma se não como dantesco, almas de todos os tamanhos, sexos, idades estavam sendo torturadas das mais diversas e horrendas formas, que, segundo Hades, representavam fielmente todo o mal que a pessoa tivesse causado e que seria submetida por toda a eternidade.

Hades permitiu que a deusa observasse tudo que queria, até respondendo em quais casos, e como, ele mesmo aplicava o castigo. Estava para se arrepender de ter contado tal fato, quando Perséfone comentou, se virando e seguindo para a carruagem:
- Você é um deus muito justo, generoso e cruel com quem merece. - E, ficando levemente rubra, completou - Os outros deuses deveriam se espelhar mais em você, deixando de lado toda a mesquinhes, inveja e luxúria que vemos no Olimpo. Gostaria de estar aqui com você mais vezes.
- Perséfone, - Disse Hades, num tom gentil, segurando a deusa pelos ombros e a virando para si - você gostaria de ficar aqui e reinar ao meu lado, após tudo o que viu e o que conversamos?
A jovem olhou para o senhor do mundo inferior por alguns segundos, até que o abraçou e respondeu:
- Sim, serei a sua dama das sombras e governarei os mortos ao seu lado.
Então começou o reinado de Perséfone, senhora dos mortos, encarregada de governar ao lado de Hades e aplicar, nas almas danadas, as maldições dos vivos, que sofreram por ações desses algozes.

Alguns meses se passaram quando Deméter, desistindo de acreditar que sua filha estava em algum lugar do mundo dos homens, foi até Zeus.
- Meu senhor e irmão, você que tudo vê, sabe onde está minha filha, Perséfone?
- Sua filha está com seu marido, Hades. - Respondeu o senhor do Olimpo, como se fosse algo óbvio.
- Minha filha está no submundo?! - Esbravejou Deméter, cuspindo algumas sementes, em sua ira, e fazendo nascer alguns espinheiros ameaçadores no centro do salão - Como é que ela foi parar no reino de Hades, meu caro irmão?
- Eu dei permissão para o senhor dos mortos escolher uma noiva, raptá-la, desde que não usasse força bruta, e desposá-la, se ela concordasse, e assim aconteceu.
Os espinheiros secaram e se desfizeram no mesmo instante que Deméter começou a chorar.
- Como pôde? - Perguntou entre soluços - Minha pobre filha, demando que a traga de volta!
- Não irei fazer isso, minha irmã, pois dei minha palavra a Hades, Hera é minha testemunha e Hermes trouxe notícias de que foi de livre escolha que o casamento aconteceu.
- Não irá trazê-la de volta? - Ameaçou Deméter, saindo do salão - Espero que saiba o que está fazendo.

Semanas se passaram e, com a crescente depressão de Deméter, a deusa não foi capaz de cumprir com suas obrigações em relação à vida vegetal e ao plantio, deixando a terra estéril e os seres da terra morrendo de fome e fraqueza. Zeus tentou convencê-la novamente de que Perséfone não estava sofrendo, mas conseguiu parcos resultados, até que decidiu quebrar sua promessa e desceu ao mundo inferior para ter com seu irmão.
- Hades, preciso que deixe Perséfone ir, Deméter está rumando para a erradicação dos homens e animais da terra.
- Ah, então é isso. - Disse Hades, surpreso - Gaia me contou que não têm recebido nutrição nos últimos dias e o volume de almas chegando aumentou vertiginosamente, Minos está no limite de sua capacidade de fazer julgamentos. Estava me perguntando o que vocês estavam aprontando lá em cima.
- Bem, agora que sabe, demando que libere Perséfone para retornar. - Exigiu Zeus.
- Não posso fazer isso.
- E por que não? - Se enfureceu o deus.
- Pois eu não sou uma prisioneira aqui! - Respondeu Perséfone, entrando no salão, ela vestia gora uma túnica negra que contrastava com sua pele branca, deixando-a terrível e sensual - Como bem sabe, casei com Hades e amo meu marido. Fico aqui pois tenho minhas obrigações como dama das sombras.
- Mas sua mãe enlouqueceu! - Rugiu Zeus - Ela vai matar a todos e então não terão mais nada o que fazer!
A expressão de Perséfone amenizou ligeiramente. A deusa sentia também a falta de sua mãe, mas não havia chance de um espírito livre como aquele residir com eles no submundo, por mais belas que algumas áreas fossem. Se virando para o marido, pediu:
- Me ajude, meu querido. - Não devo deixar minha mãe sozinha assim, mas também não quero ficar longe de você e do nosso reino.
Hades pensou por alguns minutos, também não queria ficar sem sua amada, mas o fluxo de almas estava exagerado, a humanidade estava morrendo de uma forma que não era natural, e aquilo não poderia continuar. Pegou então uma romã, a fruta mais sagrada no submundo, e retirou doze sementes, que estendeu para Perséfone:
- Aqui, como bem sabe, acreditamos e valorizamos a justiça. Te ofereço uma semente para cada mês do ano e o poder de julgar quanto tempo é justo que fique com sua mãe e aqui. Como as sementes são da fruta sacra do nosso domínio, você deverá comer quantas representem o tempo que ficará aqui, ao meu lado, e o nosso reino irá se adaptar para essa nova rotina, assim como o meu coração.
A deusa, perante a decisão mais difícil de sua existência, ponderou tudo o que pôde, desde a sua própria felicidade até o que era justo com os humanos, e comeu seis das doze sementes, selando que passaria metade do ano com sua mãe no Olimpo e a outra metade com seu marido no submundo.
Com isso, foram definidas as estações do ano, pois, no início do ano, nos primeiros três meses, Deméter está recebendo sua filha recém chegada e enche o mundo com flores (Primavera), nos três meses seguintes Perséfone ajuda sua mãe nas tarefas divinas, garantindo a colheita nas plantações (Verão), então a dama das sombras retorna para seu marido e a segunda metade do ano se inicia, onde, nos três primeiros meses, Deméter está começando a se entristecer com a saudade que sente da filha e as plantas começam a desfalecer (Outono), até que, nos três meses finais, a deusa fica em depressão, deixando de lado suas obrigações e tornando a terra improdutiva, gelada e sem vida (Inverno), fechando um ciclo das estações e iniciando o seguinte.
Hades também cumpriu, eternamente, sua promessa à Gaia, se por amor ou por receio não se sabe, mas sendo um dos raros deuses que se mantiveram fiéis à suas esposas, mesmo que não tenham gerado nenhum descendente.

Espero que tenham aproveitado, se divertido e, quem sabe, mudado a forma de ver o mundo grego.

Saudações mitológicas e até a próxima!